Editorial



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Herbert Kimura

Resumo

Apresentamos a nova edição da Revista de Administração Contemporânea, composta por seis artigos científicos e um artigo tecnológico, dentro do contexto da incorporação de trabalhos da TAC pela RAC. Os textos discutem diferentes temáticas em administração, explorando análises qualitativas e quantitativas que refletem a riqueza de abordagens metodológicas da área.

O artigo Estratégias Retóricas de Legitimação nos Relatórios da Administração: Respostas ao Movimento Antitabagista, de Susana Cipriano Dias Raffaelli, Paulo Mello Garcias, Márcia Maria dos Santos Bortolocci Espejo e Henrique Portulhak, estuda “como a empresa líder do setor tabagista, a Souza Cruz S/A, utilizou os conteúdos” de relatórios de administração “como instrumento de estratégia retórica de legitimação”. Os autores seguiram o Institucionalismo Organizacional como referencial teórico e a análise de conteúdo como metodologia de investigação dos dados.

No artigo A Teoria Queer e os Estudos Organizacionais: Revisando Conceitos sobre Identidade, Eloisio Moulin de Souza defende “que a teoria queer é um verbo (ação) ao invés de um substantivo (identidade), e a aplicação de seus conceitos não se restringe somente aos estudos sobre gênero, sexualidade e minorias”. O autor discute “a expansão da utilização dos conceitos queer no estudo de outras formas hegemônicas de categorias identitárias presentes no mundo corporativo”.

O trabalho Tradição Mercantilizada: Construção de Mercados Baseados na Tradição, de Marlon Dalmoro e Walter Meucci Nique, apresenta “um estudo etnográfico na cultura gaúcha” para “analisar como as práticas culturais têm contribuído para a preservação da tradição por meio de dinâmicas de mercado”. Os autores adotam “um olhar interpretativo sobre as práticas que múltiplos agentes desempenham no mercado e o reflexo destas na mercantilização da cultura tradicionalista gaúcha”.

Já o artigo Papel Moderador da Marca e Mediação do Valor Percebido na Intenção de Recompra, de Gabriel Sperandio Milan, Deonir De Toni, Vinicius Zanchet de Lima e Luciene Eberle, “a partir de uma revisão da literatura, identificou que a percepção do nível de preço, do valor e do comprometimento afetivo e normativo podem interferir na intenção de recompra”. O estudo buscou analisar “o impacto destes construtos sobre a intenção de recompra de smartphones de duas marcas ..., identificar a moderação da marca sobre as relações do modelo teórico apresentado, e ... identificar a mediação do valor percebido sobre a percepção do nível de preço e a intenção de recompra”.

No trabalho Os Desafios da Primeira Gestão: Uma Pesquisa com Jovens Gestores, Renata Celeste Guberfain do Amaral e Lucia Barbosa de Oliveira investigam “os desafios enfrentados nessa transição e as formas encontradas para superá-los”. Os resultados do estudo indicam “que grande parte dos desafios está relacionada à gestão dos subordinados” e que, com “relação às formas ou recursos mobilizados para seu enfrentamento, os participantes destacaram a experiência adquirida on-the-job, vivências anteriores ... com gestores atuais, ex-gestores, amigos, pares ou a própria equipe”.

No artigo Estratégia como Prática Social: Um Estudo de Práticas Discursivas no Fazer Estratégia, Almerinda Tereza Bianca Bez Batti Dias, Carlos Ricardo Rossetto e Sidnei Vieira Marinho discutem “como as práticas discursivas contribuíram no fazer estratégia de uma Instituição de Ensino Superior comunitária”. Os autores utilizam, para investigar o fenômeno, “a análise semiótica peirceana”, identificando que no processo foram relevantes os seguintes elementos: “o contexto histórico-social; a relação de poder entre os estrategistas das áreas acadêmica e meio, que está implícita nas práticas discursivas; as vozes dos praticantes que emergiram dos dados (vozes do líder, gestor e consultor externo); e o processo decisório”.

Finalmente, a edição apresenta o artigo tecnológico Coprodução de Serviço de Vigilância Sanitária: Certificação e Classificação de Restaurantes, de Luiza Moritz Age e Paula Chies Schommer. O trabalho analisa “o processo de elaboração de uma proposta de Certificação e Classificação por Qualidade Nutricional para restaurantes em formato bufê, a ser aplicada pelo serviço de vigilância sanitária municipal”. Mais particularmente, estuda-se o processo que se caracteriza “pela coprodução no design de serviços públicos, visando à promoção da saúde para enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis”.

Nesta edição, apresentamos algumas referências que podem ser úteis no entendimento de métodos inferenciais, mais especificamente, aspectos referentes ao p-value. Apesar de ser uma ferramenta bastante utilizada no estudo de hipóteses de pesquisa, seu entendimento e sua interpretação ainda são frágeis na comunidade acadêmica. Em declaração da American Statistical Association (ASA), Wasserstein e Lazar (2016) indicam que p-valuee significância estatística são frequentemente compreendidos e usados de forma equivocada por uma ampla comunidade de pesquisadores. Os autores citam diversos exemplos de discussões (Irizarry, Peng, & Leek, 2014; Nuzzo, 2014Siegfried, 20102014) que enfatizam esses problemas.

Uma leitura dessas referências pode auxiliar pesquisadores brasileiros da área de administração a melhor entender as sutilezas da significância estatística e as armadilhas de análise de dados. De forma mais específica e talvez surpreendente para alguns pesquisadores, é que o p-value (Wasserstein & Lazar, 2016) permite analisar quão incompatível os dados são em relação a um modelo estatístico, porém não representa uma medida da probabilidade de a hipótese estudada ser verdadeira ou da probabilidade de que um evento aleatório tenha gerado os dados observados. Os autores alertam que não é prudente realizar conclusões científicas ou tomar decisões se baseando somente no fato de o p-value ultrapassar um determinado limiar. Assim, apesar de o conceito de p-value ser básico em estatística, não é incomum a interpretação de que representa a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira.

Embora a polêmica sobre o uso do p-value não seja recente e tenha se tornando cada vez mais debatida nos últimos anos, é interessante destacar que, no âmbito de periódicos nacionais, a discussão em administração ainda é bastante tímida. Porém preocupações da comunidade científica com a questão da reprodutibilidade de pesquisas (Hayden, 2013) e da possibilidade de se trabalhar fenômenos complexos a partir de imensas bases de dados (Efron & Hastie, 2016) têm impulsionado o desenvolvimento de novas ferramentas para a realização de testes de hipótese.

Nesse contexto, aspectos computacionais estão motivando avanços em métodos inferenciais para dar conta de análises cada vez mais sofisticadas, como os testes de hipótese de larga escala (Efron & Hastie, 2016). Adicionalmente, considerando o alto impacto de inferências inadequadas em pesquisas científicas na área das ciências biológicas, journals de medicina têm apresentado diversos trabalhos, procurando conscientizar os pesquisadores sobre decisões e análises fundamentadas primordialmente em p-values, como discutido em Greenland et al. (2016)Kyriacou (2016) e Jung (2017).

Convidamos os pesquisadores a estudar as referências apresentadas nesse editorial para aprimorar as suas análises, evitando armadilhas que são relativamente usuais nos estudos de hipóteses por meio de técnicas inferenciais. No mais, desejamos uma ótima leitura dos artigos dessa edição da RAC.



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Como Citar
Kimura, H. (1). Editorial. Revista De Administração Contemporânea, 21(3), 1-3. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2017170131
Seção
Editorial