O Processo de Internacionalização de Periódicos Nacionais



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Herbert Kimura
Jorge Carneiro
Graziela Dias Alperstedt
Antonio Carvalho Neto

Resumo

Na Carta ao Leitor da edição passada da Revista de Administração Contemporânea (RAC), argumentou-se que o mercado editorial científico está passando por importantes e profundas mudanças.

Por sua vez, na reunião Expandida do Conselho Consultivo do Programa de Apoio à Aquisição de Periódicos (PAAP), promovida pela CAPES, no dia 29 de outubro, em Brasília, da qual participaram representantes de editoras internacionais e de revistas nacionais, foram discutidas algumas potenciais transformações no segmento de revistas científicas do país.

Na reunião, os representantes da CAPES informaram que o governo brasileiro, dentro do objetivo de internacionalização da universidade brasileira, estimula diversas iniciativas. No contexto da internacionalização da pós-graduação brasileira, além do Programa Ciência sem Fronteiras, um dos elementos estratégicos que pode contribuir para os objetivos do governo envolve a internacionalização dos periódicos científicos nacionais.

Desta forma, o conhecimento gerado pelos pesquisadores que atuam no Brasil pode ficar acessível a um público mais abrangente que, por sua vez, pode impulsionar indicadores de conhecimento e ciência do país como, por exemplo, maior número de citações de trabalhos de nossos pesquisadores.

Com foco nessa iniciativa de internacionalização de periódicos nacionais, a CAPES convidou editores de revistas para a apresentação de cinco editoras internacionais de grande influência que poderiam apoiar esse processo: Elsevier, Emerald, Springer, Taylor&Francis e Wiley.

Na parte da manhã, cada editora teve cerca de 30 minutos para fazer sua apresentação, incluindo tempo para perguntas e respostas. Na apresentação, basicamente as editoras expuseram seu histórico e posicionamento, para tanto, descreveram mais especificamente os recursos e seus diferenciais competitivos para fomentar a internacionalização dos periódicos científicos nacionais.

Na parte da tarde, as editoras tiveram reuniões internas com a CAPES para discutir aspectos técnicos e financeiros. O plano da CAPES é financiar a disponibilização no formato Open Access de aproximadamente 100 periódicos nacionais nas plataformas dessas editoras. Essa movimentação da CAPES traria aprimoramentos e maior profissionalização aos periódicos nacionais, bem como daria mais visibilidade internacional, dessa forma, contribuindo para maiores inserção e influência da pesquisa brasileira no âmbito mundial.

De acordo com o planejamento da CAPES, um primeiro edital selecionará as editoras internacionais que farão parte do programa e um segundo edital escolherá os periódicos que contarão com o apoio dessas editoras para seu processo de internacionalização. Com as diversas áreas da CAPES, esse programa contemplaria dois periódicos por área.

As editoras, a despeito das diversas similaridades em relação às estratégias de marketing e divulgação e às formas de hosting e gestão do processo editorial, possuem também elementos diferenciais que foram explorados na reunião.

Por exemplo, enquanto algumas editoras permitem que o periódico publique artigos em português, outras exigem uma versão em língua inglesa. Uma editora tem foco maior em revistas da área de gestão e negócios. Outra editora possui maior experiência no formato Open Access. Enquanto uma editora dá liberdade de o processo de submissão continuar sendo realizado pelo sistema eletrônico atual do periódico, outra necessitaria que o processo editorial fosse migrado para sua plataforma. Assim, haveria uma variedade de características de cada editora e de possíveis formatos para internacionalização.

Uma das exigências da CAPES é que os periódicos sejam Open Access, sem ônus para leitores e autores. Dessa forma, a própria CAPES financiaria a divulgação dos trabalhos nas plataformas dessas editoras, assim, viabilizando o formato de livre acesso, para conferir maior visibilidade aos artigos dos periódicos.

Obviamente, o formato final dos editais ainda dependerá de debates e negociações. Entretanto fica clara a movimentação que implica alterações relevantes no segmento editorial nacional. A internacionalização é um aspecto que o governo brasileiro está priorizando.

Enfatiza-se que não somente essa reunião da CAPES ilustra a busca por uma nova dinâmica. A chamada do MCTI/CNPq/MEC/CAPES de auxílio financeiro à Editoração de 2014 apresenta alterações importantes em relação a dos anos anteriores, notadamente, ao solicitar informações dos periódicos sobre aspectos de internacionalização como, por exemplo, membros de corpo editorial, autores e avaliadores que são oriundos de instituições estrangeiras.

É importante destacar que a ANPAD, por sua posição de liderança na comunidade científica das áreas de administração e contabilidade, já havia antecipado a necessidade por internacionalização de seus periódicos. Assim, a ANPAD, desde 2013, tem contatado as principais editoras internacionais, com isso, visando discutir estratégias de internacionalização e negociar propostas de editoração, hosting e veiculação dos periódicos da associação.

É importante ressaltar que cada periódico deve seguir seus objetivos e posicionamento. Nem todo periódico nacional tem razões para migrar para uma plataforma internacional. Além da questão de custos financeiros, há aspectos relacionados à mudança de fluxo editorial, capacitação da equipe em novos sistemas de submissão, etc.

Adicionalmente, há revistas que têm um direcionamento ao público-leitor nacional e, portanto, os benefícios marginais da associação com editoras internacionais seriam pouco substanciais. Em contrapartida, há revistas que apresentam um escopo regional, mas que publicam artigos que são de interesse da comunidade internacional. Assim, esse momento de mudança traz também a necessidade de que cada periódico reflita sobre seu escopo, seu objetivo e seu posicionamento.

Os editores dos periódicos da ANPAD entendem que o conhecimento científico gerado pela comunidade e submetido às suas revistas possui apelo junto à comunidade internacional. Nesse contexto, propostas estão sendo avaliadas com o objetivo de verificar a viabilidade técnico-financeira de disponibilizar os periódicos da ANPAD em plataformas das grandes editoras internacionais.

Como o plano da CAPES é financiar, inicialmente, por meio de seu programa, cerca duas revistas por área, iniciativas que andem em paralelo são importantes e, dessa forma, os periódicos da ANPAD continuam a prospecção de alternativas que deem maior visibilidade internacional a seus artigos. Competir em uma arena global é desafiador, porém os benefícios da internacionalização são compensadores.

A internacionalização dos periódicos nacionais está ainda em estágio incipiente, mas, para os principais periódicos de cada área, é um processo inevitável. Nesse sentido, os periódicos da ANPAD estão buscando tornar maior a influência da ciência brasileira na teoria e nas práticas globais de gestão.



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Detalhes do artigo

Como Citar
Kimura, H., Carneiro, J., Alperstedt, G. D., & Carvalho Neto, A. (1). O Processo de Internacionalização de Periódicos Nacionais. Revista De Administração Contemporânea, 18(6), 2-4. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2014140090
Seção
Carta ao Leitor