Compreender África: teorias e práticas de gestão



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Pablo Alexandre Gobira de Souza-Ricardo

Resumo

Os olhos do Brasil se voltam para sua irmã África ou, mais especificamente, a chamada África Negra. Esse olhar, como conceito cunhado sob os auspícios da Antropologia e das ciências do discurso e imagens, é determinado pela política ideológica adotada por determinada gestão no poder público, tomado o termo "gestão" em semântica ampla. Nota-se que, no contexto histórico contemporâneo pós-ditadura, o movimento afro-descendente vem conquistando espaço. É nesse contexto que se afirmam, no Brasil, a identidade étnica (Silva, 1995, p. 35) e negra (Silva, 1995, p. 38), tendo em vista a noção de diáspora negra (Silva, 1995, p. 54) que se remete ao movimento de escravidão na colonização das Américas, e a presença de afro-descendentes em diversas partes do mundo.

A construção de uma nova identidade social (Silva, 1995, p.76) e uma imagem positiva sobre si (Silva, 1995, p. 96) são conquistas de um movimento que se unifica no final da década de 1970 (Cardoso, 2002, p. 40) no Brasil para a busca das origens e a conquista de espaço na sociedade. Cada ano surgem mais resultados dessa luta travada há séculos, como os lançamentos contínuos de editais pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (e outras agências), promovendo a parceria Brasil-África (CNPq, 2005), na cooperação científica e tecnológica. Também se constata que, respondendo ao apelo dos movimentos sociais, o Governo Federal implementa programas como o Diversidade na Universidade com o propósito de "apoiar a promoção da equidade e da diversidade na educação superior para afro-descendentes e indígenas do País" (MEC, 2005).

É seguindo esse contexto que se torna possível apresentar o livro Compreender África: teorias e práticas de gestão, do professor Rui Moreira de Carvalho. O trabalho de Carvalho (2005) não enfoca apenas um país africano, no caso Moçambique, seu país de origem, mas busca realizar uma análise da África Subsaariana, como mercado que abriga possibilidades de crescimento econômico para empresas. Assim, tem-se em vista que as Áfricas são muitas, com muitas histórias (Martinez, 1991, p. 7-28).

Segundo Luís Mira Amaral, ao prefaciar a obra, são cinco os dilemas principais que a permeiam: (1) a globalização e a inserção no comércio internacional; (2) a luta contra neocolonização econômica dos países da Europa e EUA; (3) a conciliação do capital internacional com o nacional; (4) a criação de um sistema financeiro que facilite o desenvolvimento; (5) o fomento de desenvolvimento tecnológico e a competitividade (Amaral, 2005, p. 20).

O livro é organizado em oito capítulos. O primeiro deles traz a "Perspectiva Histórica" africana, desde sua fase pré-colonização, passando por uma breve análise do período colonial, a formação do capitalismo, e a formação dos Estados nacionais até se constituírem em países de Terceiro Mundo (Carvalho, 2005, p. 53). O segundo capítulo, "Condicionalismo Sociocultural", busca entender as tensões específicas das estruturas que, para Carvalho (2005), estão submetidas aos aspectos culturais da África, por se basear em seus dogmas e tabus. Esse capítulo também procura ressaltar a heterogeneidade africana e seus empecilhos na consolidação dos Estados (Carvalho, 2005, p. 76).

A partir de um exemplo de concorrência entre os indivíduos no contexto micro relatado acima, Carvalho (2005, p. 92) absolutiza e universaliza o conceito de competitividade. Em "A Competitividade de um País" a quantidade de competitividade é relacionada à qualidade, pois "é mais competitivo quem faz melhor" (Carvalho, 2005, p. 97). O autor não acredita que esse modelo possa ser aplicado plenamente no continente africano, devido à fragilidade de suas instituições. Dessa forma, procura-se traçar a realidade da competitividade de um país.

O quarto capítulo trata do "Comércio Internacional" e a influência desse na economia nacional dos países africanos. A análise não apenas enfoca as situações de importação e exportação de produtos, mas também apresenta discussões acerca da dívida externa dos países africanos. Ressalta-se que esse é um dos seus capítulos mais economicistas, muitas vezes baseando-se nas teorias de Keynes e Laffer para tecer seus argumentos.

Em "Inovação, Tecnologia e Desenvolvimento", a tecnologia é relacionada com o desenvolvimento e evolução da economia da nação (Carvalho, 2005, p. 186-198). Essa comparação é apresentada a partir de modelos e gráficos de suas aplicações, tudo relacionado a períodos históricos já traçados desde o primeiro capítulo. É nesse capítulo que se tem uma maior clareza da intenção de Compreender África em se tornar um instrumento para auxiliar na instalação de uma empresa no continente africano. Confirma-se isso na apresentação de estratégias como: "para instalar uma empresa, na generalidade dos países africanos, é necessária a existência de um sócio nacional" (Carvalho, 2005, p. 201).

No capítulo seis, sobre "A Internacionalização", Carvalho (2005) analisa o investimento estrangeiro e sua relação com o crescimento (Carvalho, 2005, p. 204). Essa análise aborda: as estratégias dos empreendedores (Carvalho, 2005, p. 207); a competitividade (Carvalho, 2005, p. 214); e o proveito de oportunidades (Carvalho, 2005, p. 224), tanto para os que desejam investir nos países africanos quanto aqueles que querem partir da África para outros mercados.

Considerado no prefácio de Amaral (2005) como um dos capítulos mais importantes na obra, "A Racionalidade da Economia Rural" é um contraponto às tentativas anteriores de industrialização forçada do país, proposta por "planeadores marxistas" (Amaral, 2005, p. 20) na África.

Por fim, apresenta-se um capítulo sobre "Responsabilidade Social" e desenvolvimento sustentável, no intuito de seguir os rumos das discussões internacionais acerca do papel social das empresas. Nesse momento da obra, Carvalho (2005) procura relacionar a economia das nações com políticas públicas, organizações não-governamentais e demais organizações, delineando as estratégias empresariais destas últimas com o objetivo de sustentar sua imagem (Carvalho, 2005, p. 269).

Tendo essa noção geral da obra, e principalmente através da leitura lúcida de Luís Mira Amaral (2005) no apontamento dos dilemas, sente-se falta de uma análise aprofundada nos aspectos identitários das formações culturais da gestão. A necessidade de uma análise menos mecanicista pode ser sugerida, não se baseando em modelos, principalmente quando se trata de perspectivas históricas da África, ou da responsabilidade social, em que as construções sociais são submetidas ao valor (Carvalho, 2005, p. 257-268).

O livro de Carvalho (2005) mostra, parcialmente, que a cultura africana se faz pela diáspora e não pela construção de possibilidades centralizadas, como afirma Paul Gilroy (2001) em seu clássico da sociologia e dos estudos da cultura. Por isso é inegável a importância do aparecimento, ainda que tardio, dessa obra lançada no Brasil como tentativa de compreender as práticas e teorias da gestão no continente africano.



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Como Citar
Souza-Ricardo, P. A. G. de. (1). Compreender África: teorias e práticas de gestão. Revista De Administração Contemporânea, 10(2), 227-230. https://doi.org/10.1590/S1415-65552006000200013
Seção
Resenhas Bibliográficas