Refletindo sobre o texto a estruturação de dissertações e teses em administração: caracterização teórica e sugestões práticas, de Pedro Lincoln Mattos



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Sylvia Constant Vergara

Resumo

No Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (ENANPAD) de 2000, Bárbara Hemais e eu apresentamos o trabalho A Cultura Anglo-Americana na Produção Brasileira: Um Estudo de Intertextualidade de Trabalhos em Estudos Organizacionais. Depois ampliamos nossas reflexões, o que nos levou à constatação de que tínhamos feito um estudo maior do que o inicialmente proposto. Tínhamos estudado O Jeito Brasileiro de Publicar em Estudos Organizacionais, título pelo qual o trabalho - alterado em parte - foi publicado em 2001 na revista Organizações & Sociedade.Um de nossos achados foi aquele segundo o qual pesquisadores brasileiros preferem não explicitar sua opinião sobre o quê ou quem está sendo citado, apenas o fazendo quando se trata de autores estrangeiros.

Ao propor um debate direto entre pesquisadores brasileiros, no qual seus nomes são explicitados, a Revista de Administração Contemporânea (RAC) busca romper com a tradição. Foi-me solicitado que lesse o trabalho enviado por Pedro Lincoln Mattos à Direção da ANPAD, e que apresentasse minhas reflexões sobre o texto, de modo a que ambos fossem levados aos leitores da RAC. É o que empreendo a seguir.

Ao fazer a crítica às formas pelas quais teses, dissertações e artigos acadêmicos são produzidos, o autor assevera que estão presos a um formalismo pouco contributivo à "verdadeira construção do conhecimento". Eis aí o seu desconforto e a motivação para a estrutura do seu texto.

Ele formula outra proposta, ainda formal: que teses, dissertações e artigos acadêmicos sejam estruturados em três partes. São elas: (1) o estado da questão; (2) a argumentação; (3) a conclusão. Ou, como nos velhos tempos, (1) introdução; (2) desenvolvimento; (3) conclusão. Cada uma das partes propostas pelo autor tem suas subdivisões.

No cerne do estudo de Pedro Lincoln está a técnica da argumentação em visão elaborada por Perelman e Olbrechts-Tyteca, pesquisadores que, em 1992, publicaram pela primeira vez, em Bruxelas, seu Traité de L'Argumentation, o qual resgata a dialética aristotélica para rejeitar conceitos como evidência e recursos à cálculos e à experiência, tão caros à produção científica, bem como para refutar a distinção entre os juízos de fato e os de valor. Sobre esse ponto, vale acrescentar a posição de Habermas. Para esse autor, pesquisas científicas são orientadas por interesses cognitivos, resultando daí uma correspondência entre conhecimento e interesse que, no plano lógico, corresponde à relação dos julgamentos de fato com os de valor. Dissociar valores e fatos, assevera Habermas, é opor ao ser um dever-ser abstrato.

Segundo os filósofos Perelman e Olbrechts-Tyteca, "o objetivo dessa teoria [a da argumentação] é o estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se lhes apresentam ao assentimento". Delimitam seu estudo "apenas à técnica que utiliza a linguagem para persuadir e para convencer", concentrando-se nos textos impressos. Como informam, não discutem a maneira pela qual a comunicação com o auditório é efetuada, a mnemotécnica e a elocução ou ação oratória.

Pedro Lincoln tem razão ao mencionar que, às vezes, teses, dissertações e artigos acadêmicos prendem-se a aspectos formais e a um rol de citações, deixando de lado "o que quer realmente o autor" e a relevância social do seu trabalho. Sublinhando esse aspecto, vale lembrar Pedro Demo, que sobre ele já discorreu longamente. É bem conhecida sua referência à qualidade formal e à qualidade política da produção científica. No entanto, se, como afirma o autor do texto ora sob reflexão, "a preocupação metodológica tem polarizado, desnecessariamente, as atenções de estudantes de pós-graduação", não se pode deixar de reconhecer que a preocupação metodológica seja tão importante quanto a motivação pelo conhecimento. Talvez por esse motivo o autor tenha proposto a argumentação, um método, um conjunto de técnicas capaz de, segundo ele, alcançar a "unidade do texto" e, nas palavras de Perelman e sua colaboradora, obter a adesão do auditório e influenciar suas ações. Não se trata, porém, de um "critério a priori para desempatar as teses opostas", fundamento da razão cartesiana, como explicita Michel Meyer no Prefácio à obra de Perelman; antes, de um "discurso do método" que analisa argumentos governantes de decisões, o qual aceita "o pluralismo, tanto nos valores como nas opiniões".

Se, claramente há de se concordar que os aspectos formais não devam sobrepujar-se ao conteúdo do que se apresenta, fica difícil, no entanto, admitir que a academia sugira a seus membros, iniciantes ou não, que a prática metodológica seja, "sobretudo, uma prática de regras metodológicas". Até onde me é dado perceber, o movimento da academia é no sentido de oferecer sugestões práticas, como o faz Pedro Lincoln, conforme explicitado no título do seu trabalho. Essas sugestões da academia são plurais, isto é, ela não elegeu um único tipo de estruturação - universal, portanto - para que trabalhos científicos sejam apresentados.

Ao aceitar propostas variadas, no entanto, o que a academia não faz é deixar de reconhecer a necessidade de que nas propostas estejam presentes alguns elementos. Todos eles também aparecem na proposta do autor: problematização de fatos e de idéias, objetivo, hipótese, justificativa/relevância (finalidade social, "ato perlocucionário de fala"), argumentação própria ou de outros autores e conclusões.

Uma significativa contribuição do texto é permitir a seus leitores a conclusão de que um trabalho científico não deve ser confundido com um resumo desse ou daqueles autores; antes, como uma argumentação com suporte em outros autores. O fato de ser um relatório, um relato dos achados e das reflexões do pesquisador, portanto, um texto dirigido a um "auditório", em função do qual qualquer argumentação se desenvolve, torna-o um "ato lingüístico de comunicação". Aqui, novamente o texto permite a seus leitores outra conclusão: linguagens herméticas, pouco claras, às vezes encontradas, não permitem facilmente reconhecer no trabalho científico relatado, um ato de... comunicação. Contra essa armadilha é preciso ter cuidado.

Finalmente, se, em concordância com o autor, pode-se afirmar que (1) um trabalho científico deve ser definido "a partir de contexto lingüístico-comunicativo de construção do conhecimento" e (2) a utilização de um conjunto de regras metodológicas não garante essa construção vale, no entanto, fazer uma ressalva: não há como realizar um trabalho científico sem um método. O da argumentação, proposto por Pedro Lincoln, guarda nas suas razões crenças ontológicas e epistemológicas que merecem nossa escuta.

Em 1991, percebi que muitos iniciantes formulavam seu problema desligado do referencial teórico que pretensamente o suportava e que, não raro, o conteúdo da coleta de dados caminhava em outra direção. Consolidei, então, uma nota didática que, em 1997, transformar-se-ia na primeira edição do livro publicado pela Atlas. O que buscava era chamar a atenção para a necessária concatenação de idéias, que deveria imprimir consistência ao trabalho. A argumentação direcionada para o problema deveria ser construída com profundidade, coerência, clareza e elegância. O livro não tem a pretensão de reacender o debate em torno de questões filosóficas e epistemológicas, pois toma como fato seu conhecimento por parte de pesquisadores. O que o livro pretende, assim como o artigo aqui analisado, é oferecer sugestões de ordem prática. Portanto, espero que tanto os leitores de Pedro Lincoln, quanto os meus, possam posicionar-se ante os debates sobre conflitos metodológicos e epistemológicos, fazer suas "escolhas cruciais", realizar suas "intencionalidades" e contribuir para o acervo da produção científica existente.



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Detalhes do artigo

Como Citar
Vergara, S. C. (1). Refletindo sobre o texto a estruturação de dissertações e teses em administração: caracterização teórica e sugestões práticas, de Pedro Lincoln Mattos. Revista De Administração Contemporânea, 6(3), 199-201. https://doi.org/10.1590/S1415-65552002000300011
Seção
Documentos e Debates
Biografia do Autor

Sylvia Constant Vergara, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Titular da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas, além de Coordenadora de Cursos de Educação Continuada do FGV Management. Suas áreas de interesse em pesquisa são métodos de pesquisa científica, gestão de pessoas, desenvolvimento de organizações.